Assessoria de Imprensa

 
 

Testemunha ocular do Holocausto conta sua experiência

Ana Lourenço | 12/09/2014

Se alguém te perguntar, agora, o que foi o Holocausto, o que você vai responder? Provavelmente, em uma definição bem simples, você vai dizer que foi o genocídio de seis milhões de judeus durante a gestão do Partido Nazista na Alemanha. É mais ou menos isso que aprendemos na escola, mas sempre de forma rápida, durante as aulas de Segunda Guerra. Quando eu estava estudando, sempre ficava impressionada com aquilo, sem entender bem como uma coisa tão terrível tinha acontecido em tão pouco tempo. O que eu mais costumava me perguntar era a respeito dos sobreviventes. Como conseguiram resistir aos campos de concentração? O que fizeram de suas vidas depois?

Quando recebi o convite para a pré-estreia do filme “Sobrevivi ao Holocausto”, fiquei muito interessada. No documentário (que estreou no dia 21 de agosto, mas ficou pouco tempo em cartaz), o polonês Julio Gartner, sobrevivente do Holocausto de 90 anos, foi levado a refazer sua trajetória desde o momento em que a Alemanha invade a Polônia, em 1939, até sua vinda para São Paulo, onde veio morar pouco depois do fim da guerra. Quando soube que o próprio Julio Gartner estaria presente à exibição, quase não me contive – uma mistura de nervoso com excitação. Aquela era uma oportunidade única de conversar com uma pessoa que viveu em primeira mão um dos momentos mais marcantes e assombrosos da História.

No dia, ele chegou pontualmente na hora marcada. Um senhor baixo, de olhos muito azuis, cabelos brancos e um sorriso bondoso no rosto. Quando escolhi uma poltrona para sentar, meu nervoso aumentou de um pulo quando ele sentou bem ao meu lado para assistir ao filme. Para tentar aplacar um pouco da ansiedade, virei para ele e perguntei: “O senhor já assistiu muitas vezes ao filme depois de pronto?”, ao que ele respondeu, sorrindo: “Só umas quatro vezes. Ainda vou ter que assistir muito mais”. Em seguida, as luzes se apagaram e a viagem começou.

O documentário, dos brasileiros Marcio Pitliuk e Caio Cobra, é a primeira produção cinematográfica que leva um sobrevivente do Holocausto aos locais por onde passou durante os seis terríveis anos de guerra. Julio é acompanhado por Marina Kagan, uma amiga de sua neta que tem mais ou menos a idade dele ao término do conflito. Tudo começa em Cracóvia, cidade polonesa onde Julio viveu até 1939, quando os alemães invadem o país. Seus irmãos fugiram para o leste, mas Julio, então adolescente, permaneceu com os pais sob as restrições cada vez maiores dos alemães. Como a situação se complicava e seus pais se recusavam a ir embora, ele resolveu fugir sozinho e se abrigou em uma pequena aldeia próxima, cujos moradores o alimentavam e permitiam que ficasse escondido em um silo de cereais. Depois de sua fuga, nunca mais viu os pais e sequer soube do que aconteceu com eles.

Depois disso, Julio relata o retorno de um de seus irmãos do exílio e a decisão dos dois de obedecer aos alemães. Como resultado, foram morar no gueto de Cracóvia. Pouco tempo depois, veio a ordem de levar os habitantes do gueto aos campos de concentração. Sua primeira parada foi o campo de Plaszow, comandado por Amon Goeth. Durante a passagem pelo campo, Julio encontra a antiga casa do comandante. “Ele era um sádico. Gostava de ficar na varanda, de onde atirava nos judeus que passassem em frente. Também treinava os cachorros para atacar os prisioneiros”, conta.

Depois, uma nova evacuação, desta vez para o campo de Mauthausen, na Áustria. A viagem terrível, feita de trem, amontoou todos os prisioneiros sem nenhuma higiene ou comida. Chegou a passar 24 horas em Auschwitz, para depois chegar ao destino final, chamado por ele de “academia de destruição do ser humano”. “Em Mauthausen, os generais alemães nos faziam carregar pedras enormes por uma escadaria imensa entalhada na pedreira. Subíamos as escadas com uma pedra, deixávamos lá em cima, para depois pegar outra e descer com ela. Fazíamos isso 10 horas por dia, e depois de dez dias todos estavam mentalmente e fisicamente destruídos. Os que não aguentavam eram atirados lá do alto”, conta.
Depois de alguns dias, foram transferidos para o campo de Melk, onde trabalhou na construção de túneis. Meses depois, nova transferência: dessa vez, para Ebensee. Faltando cerca de 70 km para o fim da viagem, ele relata que os alemães colocaram os prisioneiros para caminhar o resto do trecho. “Era a Marcha da Morte. Quem estivesse muito debilitado e não aguentasse o trajeto era executado rapidamente.” Chegando no campo, não morreu por pouco. A comida era um único prato por dia de sopa de batata, muito rala. A salvação foi um bombardeio em um trem de carga que passava próximo, carregado de comida: os prisioneiros encarregados de desimpedir a via puderam se alimentar, escondidos, do que encontraram.

Em 7 de maio de 1945, veio a rendição alemã. Na manhã deste dia, ele e os outros prisioneiros do campo acordaram e o encontraram deserto de oficiais alemães. Aos 21 anos e, segundo ele, pesando pouco mais de 30 kg, Julio pôde ir embora da Áustria, indo para a Itália, onde recuperou a saúde, e depois para a França, onde comprou sua passagem para o Brasil. Em São Paulo, casou-se com uma italiana, também judia, com quem teve dois filhos. Depois destes seis anos em que diz que “não viveu”, Julio passou todo o resto de sua vida no Brasil, e nunca quis voltar a morar na Polônia.

Mesmo com uma história tão impressionante, Julio conta tudo com bastante serenidade e não se recusa a responder nem às perguntas que possam sugerir um retorno a lembranças muito amargas: “Eu falo que sou um dos últimos moicanos, porque tem muito poucos sobreviventes na minha faixa etária, ainda mais que tenham condições de falar. Tento divulgar e contar a minha história enquanto puder.” No entanto, segundo ele, algumas passagens ainda são difíceis de reviver. “Hoje, se você é assaltado, sabe que o ladrão vai embora. Se sua casa pega fogo, sabe que os bombeiros vão vir se você chamar. Naquela época, ninguém tinha esperança de salvação. Sabíamos que ninguém viria nos ajudar, não havia voz que gritasse por nós”, explica.

Dos anos vividos nos vários campos de concentração pelos quais passou, Julio lembra-se da estratégia criada pelos alemães para que não houvesse poder de reação dos prisioneiros. “Depois de trabalhar exaustivamente o dia todo, e ter como comida só um prato daquela sopa que era praticamente uma água suja, os alemães não nos deixavam dormir. Depois de uns 20 minutos em que todos adormeciam, começava uma gritaria. Eles acendiam as luzes e as sirenes e entravam em todos os alojamentos gritando ‘Acorda, acorda!’. Depois de alguns dias, a exaustão era completa, não havia chance de ninguém reagir”, conta.

De acordo com o diretor Marcio Pitliuk, essa estratégia fazia parte de um extenso planejamento criado pelos nazistas já no início de sua gestão no governo da Alemanha, em meados de 1933. “O Holocausto foi muito bem planejado. Os campos podiam ter 30 mil prisioneiros para 100 soldados, e a maneira de controlar todas essas pessoas e impedir que fizessem uma revolução ali dentro era destruir a capacidade física e mental de todos. É deixar a pessoa com fome, com sede e cansada, para que ela não consiga pensar em nada a não ser sobreviver por mais um dia”, explica. O planejamento meticuloso seria necessário, também, porque vários campos não eram compostos apenas de prisioneiros judeus, mas também de prisioneiros de guerra, por exemplo. “Os judeus eram civis, despreparados, mas o prisioneiro de guerra era treinado, poderia reagir e organizar uma revolta”, diz.

Em relação aos prisioneiros não-judeus, Julio relembra as diferenças entre cada campo. “Nos campos de trabalho, havia também criminosos comuns, prisioneiros de guerra, e os presos políticos, considerados inimigos do regime nazista. Cada um usava uma faixa de cores diferentes no braço, para identificar a qual grupo pertencia”, conta. A partir de 1942, começaram a surgir, em massa, os campos de extermínio, para os quais eram enviados apenas judeus. Nesses campos, havia apenas a câmara de gás e o crematório – diferentemente dos campos de trabalho, em que os prisioneiros eram forçados a trabalhar, morrendo em decorrência da exaustão e desnutrição extrema.

No entanto, Julio diz que não guarda mágoa nem ressentimento. Para ele, é preciso seguir em frente, mas sem jamais esquecer o que aconteceu. “Histórias terríveis se repetem no mundo diariamente. Por isso eu gosto de encarar isso como a minha missão, a de divulgar para os mais jovens o que aconteceu”, diz. Pode parecer que o Holocausto agora pertence apenas às páginas dos livros de História, mas não devemos esquecer que ele começou há pouco mais de 70 anos – tempo muito curto para que a ferida tenha cicatrizado por completo. “Os mais fracos precisam ser amparados pelos mais fortes, e devem ser defendidos em todos os sentidos. O que aconteceu no Holocausto não pode voltar a acontecer jamais.”

Sobrevivi ao Holocausto - 21 de agosto nos cinemas

Pela primeira vez no cinema um sobrevivente do Holocausto volta aos locais onde tudo aconteceu e conta pessoalmente o que viu e viveu durante os seis anos do terror nazista. Ele viajou acompanhado por Marina Kagan, uma jovem brasileira, com aproximadamente a mesma idade que Julio tinha quando a Guerra acabou e ele foi libertado dos campos de trabalhos forçados. Marina é em nosso filme o encontro do passado com o presente. Através das conversas de Julio e Marina podemos conhecer o que foi o Holocausto nas palavras de quem esteve lá. “Sobrevivi ao Holocausto” é uma super produção brasileira, um dos mais complexos documentários já feitos no Brasil. O filme foi realizado em mais de 15 cidades da Polônia, Áustria, Itália, França e Brasil.

Vida de sobrevivente do Holocausto vira documentário

O drama de um dos últimos sobreviventes do terror da segunda guerra mundial chega ao cinema. O documentário “Sobrevivi ao Holocausto”, do diretor Márcio “Pitiliuk”, estreia na próxima quarta-feira, em São Paulo.

Sobreviventes

Fonte: nosso.jor.br

Somos todos sobreviventes. Fui assistir ao documentário ‘Sobrevivi ao Holocausto’, no Itaú Botafogo. Na sessão das 19h40 de sábado, havia 10 pessoas na sala de projeção. Três judeus e sete não judeus (tenho dúvidas quanto a dois deles). É verdade, não é um filme fácil, embora o depoimento corajoso, lúcido e forte do condutor da trama seja um grande atrativo. O judeu Júlio Gartner se dispôs a percorrer toda a sua dura trajetória, desde Varsóvia, onde nasceu, passando pela pequena cidade onde se escondeu na casa de um polonês cristão, depois pelos vários campos de concentração nos quais viveu, quando seu irmão confessou que não aguentava mais se esconder e resolveu juntar-se aos outros judeus no gueto, no que foi acompanhado pelo então rapazola Júlio.

A odisseia passa por campos na Áustria, na Polônia, mostra um emocionado reencontro, depois abraços com jovens em mais um campo visitado, conversas com outros grupos, algumas revelações feitas por jovens cristãs polonesas, que confirmam o mito em torno do qual se conhece desde a Idade Média. Há sempre algo que não sabíamos sobre os diabólicos campos, por mais que tenhamos lido.

Ao término da guerra, pesando pouco mais de 30 quilos, conhece o descanso e a recuperação na Itália, em Santa Maria Al Bagno, uma pequena cidade que guarda até hoje as lembranças dos milhares de sobreviventes que por ali passaram, alguns dos quais Júlio reconhece nas fotos de arquivo que nos mostra.

A PASSAGEMimage por Paris, para onde viajou após estar pronto para recomeçar a vida. Dali viria para o Brasil, mais precisamente em São Paulo, onde reconstruiu sua trajetória – seis anos de sua vida desperdiçados pelo nazismo. Um homem que não guarda ódio, só olha para frente, mas não esquece nunca. Porque não deve, não pode – pelos que não aguentaram o martírio.

Diante da sala vazia, lembrei-me das dificuldades que encontramos para falar do Holocausto com jovens, e com escolas judaicas, também. Como Júlio, concordo que devemos sempre olhar para frente, sem jamais esquecer. E se eu não assistir a filmes sobre o assunto, não ler livros sobre o tema, terminarei esquecendo. E se eu esquecer quem sou e de onde venho, ficarei perdida. Por outro lado, a cada filme ou livro com que me deparo, tenho a chance de conhecer um pouco mais sobre essas pessoas que tiveram a vida ou a família ceifada pelo horror nazista. E cada olhar nosso é como uma vela acesa por eles, uma oração por sua alma, um instante em que permitimos que reviva.

É verdade, as escolas públicas vão inserir o tema Holocausto no currículo. Mas precisam conhecer o mínimo do assunto, para passar conhecimentos corretos. E nós podemos ajudar.
Tenho lido sobre alguns programas que tentam unir (de novo, pois já foram muito amigos em outras épocas) árabes e judeus. A orquestra do regente famoso que une jovens músicos árabes e judeus, as visitas conjuntas, de muçulmanos e judeus, a museus do Holocausto em vários pontos da Europa, escolas que unem crianças das duas crenças… O trabalho é longo, e não há como escapar dele ou evitá-lo. Até porque há todo um trabalho oposto feito pelos terroristas da vez, que demonizam Israel e judeus sem descanso. Somos sobreviventes. Sobrevivemos porque nossos pais, ou apenas mãe, ou apenas pai, sobreviveram e se casaram e nos geraram. Somos sobreviventes de cada jornalista que inunda a mídia com informações mentirosas e parciais sobre conflitos que ameaçam Israel e os judeus, por tabela – graças a eles atacados em vários pontos do globo. Somos sobreviventes de nossa política tão mesquinha, que não hesita em tripudiar sobre doentes, que não teme enganar os ingênuos e ignorantes. Sobrevivemos à irresponsabilidade de nossos governantes, que nos agride a cada dia, à violência rotineira de nossas ruas, ao descaso com a Educação. Sobrevivemos diante do aparelhamento do Estado por razões que não implicam nos interesses do povo, mas apenas na pequenez politiqueira. Somos sobreviventes. Sobreviventes da raça humana, a única, em todo o reino animal, que possui a capacidade de pensar, de refletir – e de chegar à genialidade. Somos sobreviventes, mas podemos ser mais. Podemos ser homens e mulheres que cuidem um do outro e deixem no mundo sua marca de civilização e civilidade. Se formos menos do que sobreviventes, o que seremos afinal? Para lançar um pouco de luz nesta crônica, digo que uni outro livro aos dois que tenho em andamento: ‘A Cozinha venenosa de Hitler’, sobre o Münchener Post e ‘Parafilias’, o PRÊMIOimage SESC-Brasil para contos. Recebi, via correio, um livro de Hertz Uderman, em que ele apresenta suas piadas prediletas. A obra é oferecida de graça, e em troca espera-se que um singelo donativo seja feito para uma causa humanitária da qual Hertz participa. Ser útil é um must, uma constante judaica. Já fiz a parte que me competia e tenho, agora, alternado os três livros; porque o humor alivia a vida, ajuda e empurra a gente para frente e para o alto. Em suma, com humor se vive melhor. Mas, no geral, seguimos sobreviventes, sem dúvida.

Sobrevivi ao Holocausto

Gênero: Documentário

Tempo de Duração: 90 minutos

Classificação: Não recomendado para menores de 16 anos

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Diretor: Marcio Pitliuk, Caio Cobra

País de Produção: Brasil (2012)

- Marcelo Janot

O Globo | 20:08h | 20.ago.2014

História marcante, filme nem tanto

O grande desafio ao se analisar um filme como “Sobrevivi ao Holocausto” é o de não deixar a nobreza do tema se impor sobre o tratamento cinematográfico dado a ele. Não dá pra ficar insensível a uma hora e meia de lembranças de um sobrevivente dos campos de concentração nazistas. Mas também não dá para fechar os olhos para o fato de que o filme tem muitos problemas.

Em primeiro lugar, ele não acrescenta absolutamente nada ao que já foi documentado sobre o assunto. As escolhas feitas pelos realizadores para apresentar essa realidade às gerações mais novas foram equivocadas e pouco criativas. A começar por colocar em cena uma jovem para servir de companheira de viagem do sobrevivente Julio Gartner.

A ideia de estabelecer um contraponto geracional vira um tiro pela culatra. O que a garota oferece são crises de choro, manifestações de indignação afetadíssimas e um irritante papel de entrevistadora com perguntas óbvias. Se a presença dela serve para alguma coisa, é para acentuar a lucidez de Julio que, ponderado, não carrega o ódio que se esperaria de quem sofreu como ele. Uma bela lição em tempos de guerra.

História Viva


Estreia “Sobrevivi ao Holocausto”, documentário que leva um dos sobreviventes da alemanha nazista de volta aos locais onde viveu durante a Guerra

Pela primeira vez no cinema um sobrevivente volta aos locais onde viveu os piores momentos de sua vida e conta tudo o que viu e viveu durante os seis anos de Holocausto. Estreia nesta quinta (21) o documentário Sobrevivi ao Holocausto, dos diretores Márcio Pitliuk e Caio Cobra.

A obra tem como figura central Julio Gartner, cuja história de vida, de 1939 a 1945, dialoga com o maior crime já cometido pela humanidade, o holocausto. Muito jovem, Gartner tinha apenas 14 anos quando a 2ª Guerra Mundial teve início e é um dos poucos sobreviventes ainda vivos para contar história. E ainda, um dos poucos –se não o único – que se dispõe a recontar a história e a retornar aos locais onde viveu os piores anos da vida. Segundo o diretor Pitliuk, foi muita sorte encontrá-lo e ter a oportunidade de contar com uma versão tão equilibrada dos fatos. “Conheci o Julio em 2008, quando estava gravandoMarcha da Vida. Na ocasião ele estava visitando Auschwitz, foi um amigo em comum que nos apresentou”, se recorda, que ficou muito impressionado com o autoconhecimento de Gartner sobre a 2ª Guerra e o holocausto. “Ele tinha 14 anos quando tudo começou e 21 quando terminou. Esse tempo todo ele passou isolado, preso, sem estudar. Mas quando tudo passou, ele se interessou, começou a estudar e a ler sobre o assunto. Esse conhecimento histórico ajuda muito ele, situa a vida dele na história”, acredita. Talvez por isso Gartner lide com tudo de forma aparentemente fria e equilibrada. Pitliuk conta que em nenhum momento ele se desestruturou emocionalmente. “Quando chegamos a Auschwitz, a equipe inteira chorou, só ele que não”, conta.

Especialista e palestrante do Holocausto, Pitliuk também roteirizou o longa e já tem uma carreira fortemente ligada ao tema. Desde 2009 o cineasta vinha desenvolvendo a ideia de gravar com um sobrevivente da Alemanha nazista. “Ninguém tinha feito isso no mundo ainda: pegar um sobrevivente e levá-lo nos lugares por onde passou. E talvez ninguém faça, porque a maioria das pessoas que sobreviveram, já morreu”, conta o diretor, que quando começou as gravações também tinha essa preocupação, já que Gartner tinha 88 anos quando realizaram as filmagens.

O longa foi filmado em 15 cidades da Polônia, Áustria, Itália, França e Brasil, e contou com um orçamento de produção que passa de R$ 1,5 milhão, que, segundo o diretor, foi a parte mais difícil e só se realizou pela Lei de Audivisual, da Ancine.
Ao lado de Gartner, constantemente aparece a jovem brasileira Marina Kagan, com aproximadamente a mesma idade que Julio tinha no início da guerra. Ela foi escolhida para acompanhá-lo pelos lugares visitados e se sensibilizou em vários momentos, diante de tudo que Gartner viveu, como toda a equipe. Depois de tudo passado, já havia vivido a experiência de voltar à Polônia, na casa que morava com a família e também à Auschwitz. “Levei Gartner a lugares que ele ainda não tinha ido. A única emoção dele em toda a viagem foi quando ele encontrou a pessoa que salvou a vida dele, na época, arriscando a própria vida para dar abrigo a ele. Naquela época, quem ajudava judeu era morto”, conta.

Outro momento marcante na viagem, também retratado no documentário, foi o momento da visita ao antigo campo de concentração na Áustria, chamado de Ebensee, onde 25% dos prisioneiros morriam por semana. A surpresa foi que os austríacos simplesmente apagaram o holocausto da história do país, por vergonha, e construíram uma cidade onde foi um dos piores campos de concentração da 2ª Guerra Mundial. “A Marina ficou indignada com isso, com a despreocupação e o desconhecimento das pessoas que agora moram ali”, lembra Pitliuk e completa: “este também foi um momento muito duro para Gartner, foi o período em que ele sofreu mais e perdeu mais amigos. “Quando o levei no local, ele ficou chocado de ver”.

O documentário conta também com entrevistas de diversos especialistas que abordam o tema sob pontos de vista históricos, filosóficos, religiosos e psicológicos. A obra possui grande valor histórico, por ser o primeiro filme a trazer um sobrevivente do Holocausto retornando aos locais onde aconteceu o genocídio e relatando o que viveu e pela possibilidade de se tornar um dos únicos a abordar o fato dessa maneira.

Assista o trailer:
 
 
 
 
 
 

Memórias de um sobrevivente


 
 

A incrível história de Julio Gartner, judeu que adotou SP depois da 2ª Guerra

EDISON VEIGA

Segunda-Feira 14/05/12

A incrível história de Julio Gartner, judeu que adotou SP depois da 2ª Guerra “E isso salvou a minha vida.” Esta frase é quase um bordão para o polonês Julio Gartner, judeu que sobreviveu ao Holocausto e adotou São Paulo como sua cidade após a Segunda Guerra Mundial.

“E isso salvou a minha vida.” Esta frase é quase um bordão para o polonês Julio Gartner, judeu que sobreviveu ao Holocausto e adotou São Paulo como sua cidade após a Segunda Guerra Mundial. Em seu caso, sobreviver ao Holocausto é pouco. “Estive muito perto da morte por 12 vezes”, conta. Por isso a repetição da mesma frase em uma tarde em que atendeu o Estado para tentar resumir em poucas horas seus 87 anos e meio de uma vida singular.

“Há vários tipos de judeus sobreviventes desse período: os que ficaram escondidos na Guerra, os que fugiram dos nazistas, os que ficaram nos guetos, os que passaram por campos de concentração e resistiram à morte… Julio passou por tudo isso, por todas as etapas do Holocausto. Sua história é especial”, comenta Marcio Pitliuk, roteirista e diretor do filme Sobrevivi ao Holocausto, que conta a impressionante história desse polonês.

Durante 23 dias, no mês passado, Julio percorreu todos os pontos onde esteve durante a Segunda Guerra. O trajeto foi todo documentado pela equipe de Marcio. Orçado em R$ 1,5 milhão, o filme deve ser lançado no ano que vem – um longa para o cinema, uma versão para a televisão e uma minissérie em quatro capítulos. “Nunca antes alguém havia levado um sobrevivente de volta para fazer um filme com o percurso. Isso é inédito no mundo”, diz Marcio. “Teremos um documento marcante que servirá para todas as próximas gerações ficarem muito atentas para que nem em pensamento algo semelhante possa voltar a acontecer”, afirma o produtor do filme, João Pedro Albuquerque.

Relato. Quando os nazistas invadiram a Polônia, Julio tinha 15 anos e morava em sua cidade natal, Cracóvia, com os pais. Seus irmãos mais velhos fugiram para o leste, em área dominada pelos russos. Os pais decidiram não resistir e seguir as ordens, cada vez mais restritivas, dos alemães. Três anos mais tarde, em 1942, Julio resolveu fugir.

Foi para uma aldeia chamada Glewiec – que tem atualmente 260 habitantes. Lá ganhou a simpatia dos moradores e conseguiu permissão para se esconder, durante o dia, em um silo de cereais. Nas madrugadas, trabalhava nas plantações da vila. “Eles me deixavam um prato de comida do lado de fora da casa, como se deixa para um cachorro. E eu comia assim”, recorda-se.

Essa rotina durou nove meses, até que um de seus irmãos retornou do lado russo e o convenceu a irem para um gueto – circunscrições criadas pelos nazistas para isolar os judeus. Os dois irmãos não se separariam mais durante a Guerra.
“Fomos para o Gueto de Cracóvia. Era março de 1943. Ficamos lá apenas 10 dias, porque em seguida veio a decisão dos nazistas de liquidarem o local e nos levar para campos de concentração”, explica Julio. “É o (filme) A Lista de Schindler. É a minha história.”

A próxima parada dele foi Plaszow, um campo de trabalho onde foi designado para serviços de alfaiataria. “Consertávamos os uniformes militares dos alemães e remetíamos de volta às frentes de batalha”, diz.

Depois de outros penosos nove meses, veio nova ordem: o campo seria evacuado e todos os prisioneiros encaminhados, de trem, a outro campo. “A viagem foi terrível. Ficamos dois dias em vagões de carga, amontoados, sem água, sem comida, sem higiene nenhuma, as pessoas fazendo as necessidades ali mesmo. Alguns morreram pelo caminho e os corpos ficaram entre os vivos. Terrível, terrível”, recorda-se. Houve uma escala de 24 horas no campo de concentração de Auschwitz. Dali, metade dos vagões foi destinada ao crematório. Julio, na outra metade, escapou.

Foi para o campo de Mauthausen, na Áustria. “Lá funcionava uma academia de como destruir um ser humano. Meu trabalho era carregar pedras pesadas em uma escadaria irregular o dia todo. Levava para lá, mandavam trazer de volta. Trazia, mandavam levar de novo. Depois de fazer isso o dia todo, um trabalho tão duro e inócuo, a mente humana pifa”, comenta.

Dez dias depois, nova transferência. Desta vez para o campo de Melk, também na Áustria. “O serviço era a construção de túneis. Foram sete meses”, lembra. De lá, nova evacuação, nova transferência. “Subimos de navio pelo Rio Danúbio até certo ponto. Depois, quando faltavam 70 km para chegar ao campo de Ebensee, nos mandaram caminhar. Era a Marcha da Morte, onde eles iam executando aqueles que, debilitados, não aguentavam o trajeto.”

Chegando lá, enfrentou dificuldades ainda maiores. “Depois vim a saber que era um dos campos com maior mortalidade durante a Guerra, cerca de 25% de mortos por semana. Nossa comida diária era um oitavo de pão e um pouco de sopa de batata rala, uma água suja.”

A salvação veio dos céus. Um bombardeio obstruiu um importante nó ferroviário da região e o comando do campo solicitou mão de obra para ajudar a liberar a via. Julio foi. Entre os destroços, trens de carga carregados de farinha, açúcar e outros alimentos. “Era a comida que não tínhamos. E isso salvou a minha vida.”

Duas semanas após sua entrada nesse campo, veio a rendição alemã. Em 7 de maio de 1945, Julio estava livre. Com o seu irmão e outros tantos prisioneiros.

Era tempo de reconstruir sua vida. Nunca mais viu seus pais, muito provavelmente mortos pelos nazistas. Não quis voltar a viver na Polônia. Passou uma temporada na Itália, onde soube, por carta, que seu irmão mais velho também sobrevivera. E estava de malas prontas para o Brasil. Não teve dúvidas: também veio embora para São Paulo. “Quando pisei aqui, tive a certeza de que seria o meu país, a minha terra”, conta, com indisfarçável brilho nos olhos.

Na capital paulista trabalhou com confecções por 35 anos – primeiro como funcionário, depois como empresário do ramo. Casou, teve dois filhos, quatro netos. Mora em Higienópolis. Aos 87 anos, joga tênis no clube A Hebraica três vezes por semana e frequentemente se diverte no carteado com os amigos. Está ansioso para ver o filme pronto. Mas não tem planos de se tornar um astro de cinema. “Fiz isso para que as pessoas vejam o que foi a Segunda Guerra. Uma história como essa não pode acontecer nunca mais.”

Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, seção ‘Paulistânia’, dia 13 de maio de 2012

Viagem ao horror nazista

Gonçalo Júnior
O filme “Sobrevivi ao Holocausto” mostra o retorno de um sobrevivente aos campos de concentração.

Quantos filmes foram feitos sobre os campos de concentração criados pelos alemães nazistas que exterminaram milhões de judeus, entre 1942 e 1945? Dezenas? Centenas? Milhares? O número é expressivo tanto em ficção quanto no gênero documentário. Haveria, portanto, algum motivo para ver, a partir de hoje, em salas de cinema de São Paulo, o longa Sobrevivi ao Holocausto? Sim. E por uma série de razões. A mais importante delas: é a primeira vez que câmeras acompanham um sobrevivente aos locais de matança em massa, para ele mesmo relembrar a história e descrever a sensação de ser quase um esqueleto ambulante, submetido a dias sem água e sem comida ou a rações desumanas e presenciar execuções o tempo todo. E a narrativa é impressionante. Ele afirma, por exemplo, que viu rituais de pura bestialidade, incompreensíveis para qualquer ser civilizado, como pegar crianças judias pelos pés e açoitar suas cabeças contra muros, até destruí-las por completo.

Durante três semanas, os diretores Marcio Pitliuk e Caio Cobra acompanharam, em 2011, o aposentado Julio Gartner, então com 87 anos, aos cinco locais em que ele foi mantido prisioneiro e teria sobrevivido a doze situações de morte graças a uma série de circunstâncias do destino. Ao final, a produção passou por 15 cidades da Polônia, Áustria, Itália, França e Brasil. Gartner, nascido na Polônia, tinha 15 anos de idade quando a guerra começou, em 1939. Para relembrar em detalhes tudo o que se passou, ele viajou acompanhado por Marina Kagan, uma jovem brasileira, com aproximadamente a mesma idade que Julio tinha quando a guerra acabou e ele foi libertado dos campos de trabalhos forçados. Marina foi colocada no filme para ser o encontro do passado com o presente.

Sobram méritos em Sobrevivi ao Holocausto. A narrativa é enxuta e o personagem ajuda muito. Gartner nunca deixou de se interessar pela Segunda Guerra Mundial e tudo que o cercou naquele evento tão dramático que levou seus pais à morte. Por isso, contextualiza o tempo todo os locais que visita. Repassa a tragédia de sua vida com uma dignidade fora do comum. Incapaz de mostrar mágoa ou ódio, ele pondera as reações de indignação natural da adolescente que o acompanha com um misto de serenidade, sabedoria e capacidade de compreender e até perdoar, embora jamais fale disso. A sensação é de que ele saiu daquilo tudo com uma grandiosidade imensa e uma superioridade espiritual que só realçam as crueldades que vivenciou. “Lembranças são sempre amargas, mas quis contar essa história para a posteridade, quero deixar esse legado para que isso não se repita”, diz ele, que completa, em 2014, 90 anos de idade.

Em um dos momentos mais emocionantes, ele conta como, com a ajuda de companheiros, carregou nas costas seu irmão que estava com os pés esfolados, na chamada marcha da morte. Quem parasse pelo caminho, era sumariamente executado. Os dois saíram vivos da guerra e passaram dez meses se recuperando da desnutrição entre os dez mil refugiados judeus acomodados em beliches nos galpões dos estúdios da Cinecitá, a cidade italiana do cinema – uma informação que poucos conhecem. Lá viu finalmente o mar sob o brilho do sol e viveu sua primeira experiência sexual com uma prostituta, uma jovem compreensiva que correspondeu às suas expectativas. Como se fosse um ritual de passagem para a vida que só então começava para ele e se completaria no Brasil.

Sobrevivi ao Holocauto


De viva memória

Sobrevivi ao Holocausto

Marcio Pitliuk

Crítica Web

Um dos pontos turísticos que, provavelmente, estão no roteiro de quem visita roma é a cinecittà, complexo de estúdios cinematográficos, localizado na periferia da cidade histórica, onde foram gravados clássicos do neorrealismo italiano e do western spaghetti, além de produções hollywoodianas de décadas passadas e atuais. Mas pouco se ouve dizer que o local, criado na década de 1930 como instrumento da propaganda fascista, foi utilizado, logo após o final da segunda guerra mundial, como abrigo de refugiados, especialmente de sobreviventes do holocausto. Um paradoxo que, talvez, sirva de metáfora para o que a sétima arte pode fazer de pior ou melhor.

E neste segundo quesito, sobrevivi ao holocausto (2012) cumpre a função do cinema de ser um refúgio, tal qual a cinecittà, mas no que tange à proteção da memória. O documentário de márcio pitliuk e caio cobra é construído a partir da incrível história de vida de júlio gartner, judeu polonês que foi vítima dos nazistas. O jovem sobreviveu a quatro campos de concentração, abrigou-se no famoso complexo romano de estúdios e veio para o brasil, onde, aos 90 anos, mora até hoje, sendo uma das poucas testemunhas vivas desse terrível momento da história da humanidade.

Mais de 15 cidades serviram de cenário para as filmagens desta produção que traz o próprio júlio, acompanhado por marina kagan, uma jovem brasileira de origem judia, refazendo sua trajetória, desde 1939 até 1949, quando imigrou para cá. Neste caminho, o espectador relembra junto com ele os lugares que marcaram a sua vida naquele período.

O lugarejo no interior da polônia para onde o varsoviano foi com os pais no momento que a segregação aos judeus se intensificou. O esconderijo camponês em que era protegido pela população local, quando seus pais foram capturados. O gueto de varsóvia em que morou junto com o irmão. As duras “estadias” pelos campos de concentração de plaszow (polônia), mathausen, melke e ebensee (áustria), além da passagem, entre a primeira e a segunda parada, por auschwitz, campo polonês que se tornaria símbolo da tragédia que foi o massacre cometido pela alemanha nazista. A fuga para strasbourg, a acolhida em cidades italianas, a escala em paris e o desembarque no rio de janeiro, até a esperança brasileira encontrada na chegada a são paulo.

Os passos da jornada deste sobrevivente são, em menor ou maior escala, recontados, detalhados e revividos pela dupla como forma de sobrevivência, não só da lembrança do que aconteceu com ele e milhões de perseguidos durante a segunda grande guerra, mas do lembrete de como o preconceito e a intolerância podem gerar tanta crueldade. Por isso, o destaque do longa ao pouco caso, ou total descaso, com a memória do holocausto na áustria e da participação do país neste processo. Mesmo assim, o choro e a revolta que soa, às vezes, exagerada da jovem produtora de cinema e tv contrastam com o controle e serenidade do velho comerciante, cuja sabedoria da idade e da experiência da qual foi vítima lhe conferem mais carisma perante o público.

O filme peca mesmo quando abre espaço para os depoimentos de um rabino, historiadores e outros pesquisadores para falar sobre o tema, quando naturalmente, se espera uma abordagem mais aprofundada, diferente daquela vivida na viagem pessoal de gartner. Porém, pitliuk, também de origem judia e um especialista sobre holocausto, negligencia, em seu roteiro e na direção compartilhada com cobra, o fato de que outros povos e etnias, além dos judeus, foram perseguidos e massacrados pelos nazistas. Fora a menção a socialistas espanhóis em determinada fala de uma das entrevistadas, quem desconhece o que aconteceu naquele período não saberá, após a exibição do documentário, que as atrocidades de adolf hitler e seus comandados também vitimaram eslavos, ciganos, prisioneiros de guerra soviéticos, deficientes físicos e mentais, homossexuais, maçons e testemunhas de jeová.

Ainda sim, sobrevivi ao holocausto serve de alerta para que não se repitam os mesmos erros do passado no presente ou em um futuro próximo, e que não se deem conta disso tarde demais. Pois, como julio disse, citando um poeta conterrâneo dele, a liberdade é como a saúde: “só se sente falta quando se perde”.

"Sobrevivi ao Holocausto" [Brasil 2012], documentário de Caio Cobra e Marcio Pitliuk


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